A conversa é mole, mas o papo é firme.

segunda-feira, fevereiro 18, 2008

Mas algo esta acontecendo, e você nem imagina o que é, não é Mr. Jones?

Assisti a um filme mutcho bão, mas que infelizmente não deve atingir muitas pessoas, pelos pré-requisitos para assisti-lo. Quer dizer, dá para assistir na boa, mas muito se perde.
O assunto do filme é Bob Dylan. São 6 personagens diferentes interpretando Bob, e a interpretação mais elogiada é a de Kate Blanchet, que faz o Dylan mais parecido visualmente com o real.
Alguém lembra de uma MULHER interpretando Raul Seixas nas telas? A diferença é que Blanchet esta sendo exibida para o mundo inteiro, e a daqui pouquíssima gente viu, pela habitual falta de memória. Tendo visto as duas, a coisa esta bem à altura.
Dylan, que dentre outras coisas estará em Sampa e Rio no começo de março (viram como mesmo um ícone internacional tem que batalhar seus showzinhos para defender o seu?), tem a limitação de que precisa-se entender inglês para entender sua importância e competência na plenitude.

Cada vez que ele conta sua história, sai de um jeito, e assim sendo, ninguém imagina qual é a real. Lançou uma auto-bio, parte 1, chamado Crônicas, já traduzido por aqui, e que vale a pena, pois mesmo alterando tudo, ele conta histórias muito interessantes.
A grosso modo, saiu do interior dos States com um violão, tinha como ídolo Woody Guthrie, um cara que fazia folk de protesto e cantava na porta das fábricas para conscientizar a massa trabalhadora. Dylan ficou sabendo que Woody estava mal em um hospital, e foi visitá-lo. Dizem que aí foi feito o pacto com o diabo. Guthrie ficou surpreso em ver um garoto como aquele, cheio de vigor, e o que os dois conversaram, não tem testemunhas. Só as histórias que Dylan conta, cada vez bem diferente da outra.

Dai foi para em New York, ficou conhecido em Greenwich Village, reduto boêmio, tocando seu violão e sua gaita, já com composições próprios e letras longuíssimas. Conseguiu um contrato, gravou, e aconteceu bem antes dos bítous invadirem a América.
Hoje em dia, dizem que suas letras são a verdadeira história americana.
Quando os bítous chegaram aos States, queriam conhecer seus ídolos, e Dylan era um deles, principalmente para J. Lennon. Encontraram-se num hotel, e Dylan os recebeu em seu quarto. A canção que estava estourada no país inteiro era "I wanna hold your hand", e num trecho os bítous cantavam "I can't hide" (não consigo esconder), e Dylan entendia "I get high" (Fico chapado). Assim sendo enrolou um Bob Marley reforçado, e apresentou a boa e velha cannabis aos rapazes de Liverpool, que nem imaginavam o que era aquilo. Além desta porta aberta, Lennon sempre disse que fez varias música imitando o estilo de Dylan.

Por aqui, a influência descarada foi "Ouro de Tolo", do Raul, que chupa tanto o estilo musical, quanto a forma de letra longa e meio falada/cantada.
Depois desta, foi cantar no maior festival folk dos States, em Newport e cometeu o sacrilégio dos sacrilégios: aposentou o violão e tocou guitarra, ou melhor, eletrizou sua banda inteira. Foi saudado ao grito de "Judas".
Isto pode ser visto no filme "Don't look back", um belo documentário que tem nas locadoras daqui, além de uma excursão que ele faz na Inglaterra, onde recebe todo mundo em seu hotel, num caos total. É pena que fica comprido o post, mas tem história para caramba.
Também tem aquele documentário feito pelo Martin Scorsese, No direction home, que vale muito a pena. Scorsese acabou de lançar Shine a Light, documentário com os Stones. E foi ele quem fez The Great Waltz, filme que mostra a última apresentação do The Band, que era a banda de apoio de Dylan nos velhos tempos. Também tem que ser visto e está em qualquer locadora. Dylan toca por lá.

Casou-se, teve duas filhas, e durante muito tempo rolou um casamento conturbado com Sara, pois Dylan é muito chegado na variação de parceiros. Ou melhor, parceiras.
Em seu pico de popularidade, deu uma porrada de moto, quase morreu, e ficou uns dois anos fora de circulação.
Escreveu um livro, Tarantula, e quem já o viu, sabe que o linguajar principalmente de CV em seus escritos tropicalistas, é totalmente influenciado por Dylan. Dá para notar principalmente na abolição das maiúsculas, e no uso do &.
Converteu-se de judeu para católico, causando outro reboliço, e lançou discos só falando em Jesus. Depois desconverteu.
Fez um filme doidão, chamado Renaldo and Clara, na verdade Dylan and Sara, onde várias pessoas interpretam Dylan, e ele é diretor, roteirista, etc. Cv também se aventurou a fazer "Cinema falado", seu único filme, com a mesma forma fragmentária de Bob. Tudo tem sua origem, seja aqui, ali ou em Santo Amaro.

E é daí que o filme atual, "I'm not there" (Não estou lá, parece que vai ser o título por aqui), não só chupa a idéia, mas também conta várias destas histórias, parte do livro, parte do filme, parte da vida, parte da personalidade, parte das mentiras, parte das contradições, e assim vai.
Como disse, é meio difícil de entender, sem ter as referências históricas, mas mesmo assim vale muito a pena, tanto pelas situações, quanto pela trilha sonora. Quem nunca ouviu Blowing in the wind? (não na versão Supla pai, claro), Like a Rolling Stone (talvez a mais importante canção de Dylan), The times they are a-changing, Mr. Tambourine man, The might Quinn, Lay lady lay, e muito, mas muito mais.

Em tempo: o título do post é uma frase que ele fica repetindo em sua canção Balada do Magrelo.

E o nome real do rapaz é Robert Zimmerman. Ele teve a sorte de se esconder atrás de um nome artístico, para ter onde ir quando se enchia da folia. Do you, Mrs. Jones?

2 comentários:

Joseh Garcia disse...

Oi, Bart!

Depois de um longo inverno sem comentar nada, volto a meus escritos aqui.
Olha so...vi o filme. Talvez por nao ter as tais referencias historicas, dei algumas voadas, ou achei meio lento em alguns momentos. Porem, o filme valeu pela interpretacao da atriz. fantastica!

Quanto a Rita Raul Seixas..ainda nao tive a sorte de ver o Curta que ela fez. Vi trechos e claro, muito bom!
Abracos!

Monegheta disse...

Eduardo 'Peninha' Bueno, gaúcho, gremista e fã de Bob Dylan sempre conta a história que Bob se tornou gremista por sua causa. Peninha foi cicerone de Dylan em PoA, e lhe falou sobre Lupicínio Rodrigues, autor do hino do Grêmio (1953), traduzindo-lhe o refrão 'How many roads must a man walk down" como 'até a pé nós iremos' num sentido figurado, quase poético; e tb falou de 'Vingança'(1951):traduziu 'Ela há de rolar como as pedras que rolam na estrada' como 'you shall roll like the stones by the side of a dirty row'. Depois de saber disso, Bob Dylan sorriu seu sorriso enigmático e nada disse, mas Peninha tem certeza que ele virou gremista.
O certo é que Dylan tirou seu chapéu para Lupi.
A biografia do Dylan é bem interessante tb.