A conversa é mole, mas o papo é firme.

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domingo, abril 01, 2007

No olho do furacana

Não vou sacanear ninguém: só tem um pouquinho de Ritz e é meio compridinho.

O Bush veio infernizar um pouco mais a vida de Sampa, e pouco ou nada falamos por aqui. Ritz me disse que no exato momento em que ele chegava no hotel, ela passava ao lado, vinda de uma gravação feita para os dvds, e lamentou naquele exato não ter uma bazuca, pois segurança alguma iria impedir o feito. Fica para a próxima.
E bem feito, porque agora o Lulalelé tá filando bóia e bebum em Camp David, e levando mais uma embromada do Lord of War.

Mas é só introdução para contar um pequeno drama que pode se expandir pelo país. Bush e outros mais estão dando uma bicada no tal programa do etanol, e os imediatistas estão pintando isso como a grande emancipação que o país precisa.

Isso pode fazer com que pela facilidade de plantio e pouca manutenção, muitas regiões agrícolas produtivas do país virem o deserto verde que é um canavial. Digo pois moro exatamente no meio deste deserto.
Ribeirão Preto era a Capital do Café, e vivia da exportação do nobre plantio. Na primeira onda do carro a álcool, tudo virou cana. Pouco antes da fase de colheita, os usineiros usam de uma prática que se chama queimada, que é botar fogo literal no canavial. Calor pior que o da bacurinha. Isto acaba com toda a folhagem, e depois disso vão os peões colher a cana em si.
Isto faz com que durante quatro meses a minha cidade fique envolta em cinzas, como se estivesse à beira de um vulcão. Esta cinza fica bem fininha, as pessoas respiram, e da década de 1980 para cá, não existe criança na região que não tenha um ou outro problema pulmonar ou ligado às vias respiratórias.
Agora imaginem as pessoas que estão lá no meio, colhendo e em contato direto com esta fuligem? Escondem bastante as estatísticas das baixas dos colhedores de cana.
O pior é que queimada é proibida por lei, e nenhum prefeito tem coragem de acabar com a prática, com medo de perder as arrecadações e outras propinas que rolam. Haja aerosol nos hospitais, ou um cem número de maquininhas nas casas.

Pior de tudo, é que somando a devastação dos campos para o plantio, mais um cem número de pedreiras exploradas até não poder mais, modificaram o perfil montanhoso que cercava a cidade. O resultado? Mudança dos ventos, trazendo tempestades e tufões nunca dantes vistos. E vem enchente, erosões que engolem casas nas cidades e um aquecimento acima dos níveis que eram comuns, lembrando que isso somado ao aquecimento global que está tão em moda, deixa a coisa impossível. A caldeira do diabo em pessoa. O pai do rock está morando aqui.

Imaginem isso se alastrando por várias regiões do país?
Mas um outro exemplo dado pela região, foi uma grande área que plantava laranja, e teve um boom enorme, quando de algumas geadas no sul da Flórida, no começo dos anos 1990. O que aconteceu? Todo mundo plantou laranja, as geadas não vieram mais, não precisaram da laranja brasileira nos States, e todo mundo faliu.

Imaginem tudo voltado para o álcool e repentinamente quem estiver comprando não queira mais o álcool brasileiro, já que o grande quintal canavieiro dos bush é Cuba, que está por um triz, esperando Fidel apagar? E os gringos estão desenvolvendo o etanol de grãos, e logicamente vão usar sua própria tecnologia.
E só para terminar, aqui na região de Ribeirão existem cidades menores, que abrigam os bóias-frias, que vem colher a cana. Aos poucos estão tornando a colheita mecanizada, e as pessoas vão ficando pois não conseguem voltar para suas origens, sem ter onde trabalhar e ganhar seu sustento.
Estas cidades são verdadeiros barris de pólvora, e exportam os marginais da região. As mortes que ocorrem são muito violentas, e muitas revoltas colocam as pessoas armadas nas ruas. Por enquanto foram poucas, mas vem mais por ai. E como disse, tudo isso pode se alastrar.
Quem ganha com isso?
Meia dúzia de usineiros que detém a maior parte das terras produtivas do país.

Bem, quem sabe o papa traz a solução, não é mesmo? Oremos mais um pouquinho. E me respondam, o Sobel vai ou não encontrar com o papa?

O que é pior: hoje é primeiro de abril e nada disto é mentira. Nem isso se preserva mais.